JC e-mail 4873, de 11 de dezembro de 2013

Painel sobre desafios do ensino para crianças de até 5 anos abriu dia de debates do Clinton Global Iniciative Latin America

A primeira infância foi o tema de abertura do segundo e último dia do Clinton Global Iniciative Latin America, evento promovido pela fundação do ex-presidente americano, Bill Clinton, no Copacabana Palace. Intituilado “Desenvolvimento na Primeira Infância: fechando lacunas e abrindo futuros”, o painel debateu melhorias para o setor. Após conversa, o consenso foi de que investir nos primeiros anos da criança é o caminho para iniciar o círculo virtuoso da educação.
Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o palestrante Marcelo Néri foi um dos principais entusiatas da alocação de verbas na primeira infância. Para ele, o período anterio ao ensino formal é a faixa com o melhor índice de retorno para o investimento público.
– Para cada real investido na primeira infância, nós receberemos muito mais em troca. Melhorando a educação desde a base, cria-se um efeito multiplicador para todos os outros níveis de ensino, tanto o fundamental, quanto o médio e o superior – explicou Néri.
Jorge Guerdau, ex-diretor do Grupo Guerdau e conselheiro do movimento Todos Pela Educação, também clamou por mais atenção governamental para a primeira infância. Ele pediu para que o Brasil importe iniciativas de sucesso no exterior, a fim de conferir maior eficiência a modelos educacionais considerados ultrapassados, como o excesso de conteúdo na educação básica. Em 2011, o empresário foi conselheiro da presidente Dilma Rousseff, encarregado de dar um “choque de eficiência” na máquina pública federal.
No painel desta terça-feira, Guerdau criticou o que para ele ainda são entraves na educação:
– Os cursos de Pedagogia são ultrapassados, com muito mais teoria do que prática. E ainda há muito corporativismo e politicagem. Outro dia eu vi a pauta de reivindicações de um sindicato no Rio Grande do Sul: eram 15 demandas, e nenhuma delas focando na criança ou pedindo melhorias concretas para a educação. Se a criança votasse, talvez as coisas seriam diferentes.
O professor mexicano Sérgio Juárez Correa, da Escola Primária José Urbina López, que fica perto da fronteira com os Estados Unidos, também integrou o painel. Ele foi desenvolveu no colégio um modelo flexível de educação, no qual os alunos são divididos em grupos de aprendizado e participam da elaboração do conteúdo didático que irão estudar. Mesmo sem abordar especificamente a primeira infância, Sérgio deixou um precioso conselho:
– O aluno é um dos três pilares, junto com pais e professores. É importante também saber o que eles querem e não apenas cobrar deles o conteúdo. Temos que mudar essa metodologia onde os professores apenas escrevem no quadro e os alunos memorizam – disse o mexicano.
Sentada ao lado de Sérgio Correa, a diretora executiva da Fundação Escuela Nueva, Vicky Colbert, chamou também atenção em sua fala para a urgência de as escolas se adaptarem aos alunos e se ajustarem aos novos tempos. Colombiana, Vicky desenvolveu um projeto de escola voltado para a inovação e para o estímulo ao aluno, inicialmente em áreas rurais. Todos os professores ensinam a todas as séries, sempre focando na troca de experiências entre alunos. Nas salas de aula, chega a haver até dois docentes ensinando conjuntamente. O sucesso de seu modelo foi tamanho que hoje ele é replicado em 16 países. O segredo, segundo ela, é focar em questões práticas:
– O que fizemos não foi uma filosofia nem nada muito teórico. São modelos replicados por qualquer docente em sala de aula, em qualquer país. Damos a ele instrumetos para estimular a inovação em seus alunos. Agindo assim, não só haverá ganhos acadêmicos, mas também de cidadania – argumenta Vicky.
(Leonardo Vieira/O Globo)